A primeira vez a gente nunca esquece

arthur flamengo

De mamãe

Maracanã, 10 de maio de 2018. Quinta-feira. 19h30. Para muitos, apenas mais um dia comum, de uma semana comum.
Decidi falar sobre esse dia e o quanto foi marcante pra mim. Por que não? Estou cansada de saber o quanto um bom jornalista precisa ser imparcial e coerente. Mas, sabiam que uma pessoa, antes de se tornar um bom jornalista imparcial e coerente que fala sobre futebol, é apenas alguém que torce para um time?

Sou uma amante da comunicação, e acima disso, eu amo histórias. Histórias reais de pessoas reais. Decidi começar a contar algumas aqui, e esta será a minha, um artigo sobre uma pessoa real e normal, que torce para um time popular. Mas, hoje o time será apenas o coadjuvante. Seja muito bem-vindo você que é flamenguista, tricolor, palmeirense ou vascaíno. Essa é a minha história, mas amanhã pode ser a sua.

Pois bem, eu sou rubro-negra, sim, senhor! Com orgulho, de coração e alma.
Me tornei mãe no dia 21 de setembro de 2017, mais precisamente, no dia 19 de fevereiro daquele ano, quando ouvi “positivo”.  A partir disso a minha vida mudou completamente.

Sou apaixonada por esportes, e especialmente pelo futebol. Gosto da arquibancada, da bateria ensurdecedora, dos cânticos que arrepiam, de abraçar quem não conheço no estádio, de gritar, pular e cair da cadeira. Gosto até do banho de cerveja na hora do gol, gosto de calar a boca de quem me pede para escalar um time ou para responder aquela velha (e chata!) pergunta sobre o que é impedimento. Gosto da roda de amigos fora do estádio, aquele chamado pré-jogo, em que a gente aposta o placar e os artilheiros da partida, ou daquele churrasco em frente ao telão. Gosto do metrô lotado de gente usando as mesmas camisas, como um uniforme, e do aquecimento que incomoda quem está usando o transporte público para outro destino. Ah, deixa a gente cantar, vai! Só não gosto daquele cachorro-quente pão com salsicha que custa uns 10 reais e não tapa nem o buraco do dente. Mas isso aí a gente até deixa passar batido.
A parte mais triste disso tudo é se deparar com a violência nos estádios e seus arredores em dias de jogos decisivos ou de clássicos, especialmente regionais. Pensando nisso, deixei de freqüentar estádios.

Arthur nasceu e antes disso, amigos que torciam pelo mesmo time que eu o presentearam com uniformes, camisetas e diversos itens do Mais Querido. Que alegria poder imaginar o mascotinho usando tudo aquilo!

Meses se passaram, partidas importantes assistidas pela TV, amamentando o pequeno ou simplesmente com ele dormindo ao lado. Eu não podia sequer gritar na hora do gol. Sabe como isso é angustiante? Putz!

Mas o dia chegou. Copa do Brasil, Flamengo jogando bem, partida com bom adversário. Era uma quinta-feira. Amanheceu.

De Arthur

Eu não sei bem como funciona isso de dia da semana, horário, essas coisas. Só sei quando chega o final de semana, pois aí eu fico o dia inteirinho coladinho na mamãe. São dias felizes, pois ela fica em casa, não precisa ir para o escritório e nem para a faculdade. A gente se diverte brincando no tapete da sala e na hora do banho também. Durante os outros dias ela não costuma sorrir tanto. Mas aquele dia estava diferente. A mamãe saiu para trabalhar com um sorriso bonito e na noite anterior falou pra mim “amanhã será especial, Pitoco”. É, ela me chama assim. Alguém sabe o que significa?

Ela chegou do trabalho, e estava agitada! Tomamos um banho animado. Ela cantava umas músicas que não eram nada parecidas com “se essa rua fosse minha…” ou “ciranda cirandinha”. Mas eu gostei!

Ela a todo instante sorria. Fez o mesmo ritual de sempre. Ainda enrolada na toalha de banho, ela rapidamente colocou minha fralda, penteou o meu cabelo e ao pegar uma roupa que eu nunca havia usado, ela sorriu. Quando a vesti, vi seus olhos brilharem. Posso até arriscar que vi água lá dentro. Vocês entendem quando isso acontece, né?

Ela correu comigo pela casa sorrindo e esbravejando “olha como ele está lindo!” e eu pensando “como sempre”.

Meu vovô nos acompanhou até o metrô e pediu que Papai do Céu fosse conosco. Ele sempre diz isso. Todos que passavam por nós sorriam e lançavam olhares carinhosos. Me senti admirado. Mamãe era só sorriso. Nunca vi sorrir tanto.

Chegamos. Mamãe me carregava com os braços firmes e eu nunca vi tanta gente em um só lugar. Mas ao contrário dos lugares em que me levava, neste as pessoas só vestiam duas cores. Que esquisito, a partir dali achei que seria entediante.

Entramos em um lugar que parecia um templo. O que é um templo? Sei lá. Mas ouvi dizer que era aquilo ali mesmo. Pessoas vestidas iguais, cantando as mesmas músicas, olhando para a mesma direção. Que luzes lindas! Um campo bem verdinho à minha frente que eu até me imaginei engatinhando lá. Que massa!

Só uma coisa me chamava mais atenção. Nunca vi os olhos de minha mãe brilharem tanto. Parecia que ela estava no melhor lugar do mundo, com a melhor pessoa do mundo. Que irado! Quando as lágrimas escorreram em seu rosto, ela chegou até a engoli-las, porque a boca não fechava um minuto. Ora cantava, ora sorria.

Eu não quis dormir. Acompanhei minha mamãe bem acordado, prestando atenção em cada detalhe, cada sorriso, e pude sentir cada segundo daquela noite especial que ela me prometera.  Se foi para ela, foi para mim também. Embora eu tenha sentido, quando chegamos em casa e deitamos para dormir, exaustos, ela sussurrou “obrigada, meu filho.. um dia você irá entender”.

Eu vou ficar aguardando por isso. Ela me disse que escreveria para que um dia eu lesse. É assim que ela faz sempre.

7 comentários em “A primeira vez a gente nunca esquece

  1. Esse dia foi sensacional, privilegiado fui eu de estar com ele no colo nesse dia dentro do maraca, e essa foto aqui no blog ele estava no meu colo, salvei todas elas(fotos) desse dia e vou mostrar pra ele quando ele tiver mais velho. SRN.

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  2. Que texto maravilhoso!!!! Adoraria ter ido esse dia, imagino a emoção! Mas não faltarão oportunidades!!! Tutuuuu lindão, já sentiu na pele a emoção! Titia amaaa ♥️

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  3. O que é impedimento mesmo? Hahaha
    Linda história!
    Que Deus abençoe para que continuemos lendo e compartilhando histórias emocionantes como essa.
    Tmj musa
    Mengão na veia
    SRN

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