A Cesar o que é de Cesar

Futebol para alguns, football para outros, soccer para uma minoria. O esporte mais popular do planeta que, muitas vezes, carrega a fama de ser injusto, e é capaz de surpreender até mesmo seu maior entendedor, cumpriu o que se esperava dele.

A Copa do Mundo da FIFA Catar 2022 foi um torneio épico e memorável por diversos motivos. As manifestações pelos direitos das mulheres e LGBTQIAP+ que invadiram o Oriente Médio, e foram ganhando as ruas de centenas de países pelo mundo, foram alguns destes. Ora na braçadeira do capitão, ora no torcedor que corajosamente driblou a segurança, e correu pelo gramado estampando em suas vestes o apelo “respect for iranian woman”, enquanto tremulava no ar a bandeira com as cores do amor livre.

Entre outros grandes marcos da vigésima segunda edição do maior evento esportivo do mundo, a mudança de calendário para conforto dos atletas e comodidade do público em geral; o investimento bilionário jamais visto em tecnologia e inovação e a inesquecível partida sob o comando de um trio de arbitragem feminino, numa Copa do Mundo masculina, pela primeira vez na história. Um torneio que ficará marcado para sempre pela sua singularidade e pelo dia em que o futebol cumpriu com o seu dever e fez a sua justiça. 

“Dai a César o que é de César” como diz a Bíblia ou o ditado popular. Os deuses do futebol ouviram, entenderam o recado e atenderam ao apelo. O maior torneio do esporte mais idolatrado do mundo se rendeu ao talento extraterrestre de Lionel Messi.  

Abrindo o placar de uma partida que parecia um massacre sul-americano sobre os europeus atuais campeões do mundo, Messi mostrava a todos o quanto desejava e precisava estar ali.

Em uma versão inflamada – quiçá jamais vista – de um argentino de poucas palavras criado em terras frias, longe de sua origem, seus olhos carregavam o sangue que há 35 anos já corria em suas veias. 

Mesmo com uma carreira consolidada e incontáveis troféus na bagagem, faltava aquele que há trinta e seis anos não aterrissava em sua terra natal. Pouco depois de completar dois anos da morte do maior ídolo do esporte nacional, Diego Armando Maradona, e na última participação de Lionel em Copas, os hermanos tinham motivos e expectativas de sobra para ver o camisa 10 erguer aquela taça.

Nem a improvável derrota de virada para a Arábia Saudita na estreia do Mundial, calou os milhares de argentinos que invadiram o Catar, com seu canto provocador contra brasileiros, que exaltava seus ídolos e almejava o topo do mundo. Era um mar de gente trajada de azul e branco, como vestes de guerra, esbravejando, e liberando uma energia quase desconhecida nas terras do país mais rico do mundo.

Após quebrar marcas históricas durante todo o torneio, Messi encerrou sua trajetória em Copas pela sua seleção, com chave de ouro. Até chegar o dia mais sonhado de sua carreira, precisou amargar um vice-campeonato, em 2014, e outras três eliminações: 2006, 2010 e 2018.

Durante a competição, assistiu de camarote o maior adversário em sua carreira, esquentar o banco de reservas, esbravejar com seu treinador e por fim, cair em lágrimas, voltando para casa antes do que havia planejado.

Na maior final de Copas da história, avistou uma jovem estrela no auge, que já carregava o peso do título que esperava, do outro lado do campo. Era seu companheiro de time, que virara seu rival a ser batido naquele fatídico 18 de dezembro de 2022.

Após uma primeira etapa que já desenhava o desfecho da história, a segunda metade do jogo se transformou em um verdadeiro duelo entre dois dos maiores futebolistas do planeta: Messi de um lado, Mbappé de outro.

Os olhos do mundo estavam voltados a eles: uma verdadeira lenda do futebol nos últimos 20 anos, e um jovem talento que de vida, tinha pouco mais do que isso. Quem vence? A experiência e a maturidade? Ou a juventude e velocidade?

A boa forma não entra em pauta. Ambos no melhor momento de sua carreira, esbanjando energia, força física e preparo mental. Não haveria uma final mais justa para esta Copa. Enquanto acompanhamos as últimas batalhas de uma era, colocando um fim (?) em um ciclo extraordinário, nos deparamos com a ascensão de uma estrela, que tem todos os requisitos para se tornar referência em uma nova fase do futebol mundial.

Não faltou qualidade. Nem força. Nem vontade. Sobrou raça. Talento. Coragem.

Em um final de jogo eletrizante, os 30 minutos de prorrogação não foram suficientes. Precisava mais. Nós precisávamos de mais um pouco daquele futebol. Todos precisavam que aquela partida durasse um pouco mais. Ninguém queria se despedir daquele momento. Ninguém queria ver Lionel Messi encerrando sua participação em Copas.

Nos pênaltis, um ensinamento que o Mundial nos trouxe: Os melhores batem P-R-I-M-E-I-R-O. A considerar a cobrança perfeita de Mbappe contra Emiliano Martínez, ninguém esperava o que o goleiro faria a partir dali.

Partiu Messi em direção a marca do pênalti. Com seu semblante sempre sério. Concentrado. O mundo inteiro se questionando: “pipoca ou não pipoca?”

E a resposta veio em uma cobrança fria, tranquila e rasteira. Exibindo muito sobre a certeza do que estava fazendo. Após cumprimentar seus companheiros de equipe, assistiu de longe Martínez fechar o gol e se tornar gigante diante de Coman e minutos depois, desestabilizar Tchouaméni e bailar numa comemoração épica.

Numa disputa perfeita para os argentinos, a redenção. Messi desaba em campo, como quem em poucos segundos consegue liberar toda a tensão de uma vida. O peso das eliminações e das desconfianças se vai.

Agora ele não precisa mais ser comparado. Maradona descansa. E celebra. De algum lugar, ao lado de Pedernera, assiste o seu sucessor escrever o seu nome na história.

Em sua melhor versão, Lionel canta alto, sorri, e repete o movimento das mãos que se tornou a marca da albiceleste, enquanto é erguido por seus companheiros e ovacionado por milhares de conterrâneos eufóricos.

A história foi escrita. O futebol fez a sua justiça. E se antes havia dúvida, agora já não existe mais. Lionel Messi é o maior de sua era.

Livre de quaisquer comparações põe fim a falácia de que não é um superatleta e que apenas seu “talento natural” o fez chegar ao topo.

Numa sintonia perfeita entre corpo e mente, ele escreve um capítulo só seu na história argentina e se senta à mesa com Diego.

6 comentários em “A Cesar o que é de Cesar

  1. Como é bom ver um texto tão bem escrito, sobre algo atrelado ao mundo masculino, feito por uma mulher!
    Parabéns!!!
    Mistura de coesão literária e conhecimento do assunto abordado!

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